ARTES VISUAIS | 

crônica de banalidades ordinárias

Texto de Ronaldo Entler 

Curador da exposição para o Nova Fotografia | MIS-SP (2019)

O estranho aparece sempre deslocado. Ele pertence a outro lugar, é alheio, estrangeiro, mas só é assim percebido porque se infiltra num espaço familiar. É justamente a dificuldade de situá-lo que o torna tão perturbador. Como o homem de aparência desagradável que Freud conta ter visto de relance num trem e que, por fim, revela ser seu próprio reflexo num espelho (O inquietante, 1919). No final das contas, o estranho está sempre próximo, às vezes dentro, na distância imposta pelas cisões que nos habitam.

A normalidade com que ele irrompe não é mais que a ilusão de uma regularidade que só existe porque o olhar se agarra aos momentos que lhe são mais legíveis e confortáveis. O estranho tem também sua recorrência, mas se esconde nesses outros instantes não eleitos e pouco decifráveis em que o gesto aparece descolado de sua funcionalidade, desprovido do desenho final que o olhar lhe atribui quando reconhece nele uma eficiência.

Neste trabalho, Sylvia Sanchez encena com seu próprio corpo ações que sobrepõem os espaços supostamente antagônicos do estranho e do cotidiano. Suas imagens não têm como referência os pesadelos, os contos fabulosos, os filmes de horror ou os hábitos exóticos de comunidades distantes. O projeto nasce de um acontecimento corriqueiro apreendido pelo meio, numa configuração ainda não plenamente funcional, quando sua mãe busca uma posição para desamassar o forro de um antigo casaco pendurado na porta de seu guarda-roupa. 

A partir disso, a artista inventa situações domésticas, constituídas por elementos bastante familiares, mas atravessadas por gestos que parecem semear uma narrativa fantástica. Ela faz durar diante do olhar - como um fantasma que decide não mais se esconder - a fração de absurdo que reside nos acontecimentos ordinários.

Fotos da exposição no MIS-SP (jul/ago 2019)